segunda-feira, 19 de junho de 2017
quinta-feira, 15 de junho de 2017
quinta-feira, 25 de maio de 2017
segunda-feira, 22 de maio de 2017
O MISTÉRIO DE ROSETO
Roseto Valfortore situa-se 169Km a sudeste de Roma, nos contrafortes dos Apeninos, na província italiana de Foggia. No estilo das aldeias medievais, a cidade se organiza em torno de uma grande praça central. Diante dela está o Palazzo Marchesale, o palácio da família Saggese, no passado a maior proprietária de terras da região. Uma arcada lateral conduz a uma igreja, a Madonna del Carmine – Nossa Senhora do Monte Carmine. Degraus de pedra estreitos sobem as encostas dos montes, flanqueados por grupos de casas de pedra de dois andares e telhas vermelhas.
Durante séculos, os paesani, ou camponeses, de Roseto trabalharam nas pedreiras de mármore das montanhas em torno da cidade ou cultivaram os campos no vale abaixo, descendo de 6 a 8km de manhã e, depois, fazendo o longo percurso de volta à noite. A vida era dura. Os moradores desse lugar mal sabiam ler, eram paupérrimos e não tinham muita esperança de melhorar economicamente. Foi quando no final do século XIX chegou à região a notícia de que havia uma terra de oportunidades do outro lado do oceano.
Em janeiro de 1882, um grupo de 11 moradores da cidade – 10 homens e um menino – zarparam para Nova York. Passaram a primeira noite nos Estados Unidos dormindo no chão de uma taverna em Mulberry Street, na Pequena Itália de Manhattan. Depois se aventuraram para o oeste, até encontrarem trabalho numa pedreira de ardósia a 145Km da cidade, perto de Bangor, Pensilvânia. No ano seguinte, mais 15 pessoas de Roseto trocaram a Itália pela América, e vários membros desse grupo foram se juntar aos que já haviam chegado. Esses novos imigrantes, por sua vez, enviaram notícias a Roseto sobre a promessa do Novo Mundo. Em pouco tempo, outros grupos de conterrâneos seus começaram a fazer as malas e rumar para a Pensilvânia. O pequeno fluxo inicial de imigrantes acabou se transformando numa torrente. Em 1894, cerca de 1.200 habitantes de Roseto solicitaram passaportes para os Estados Unidos, deixando ruas inteiras de sua cidade natal completamente abandonadas.
Essas pessoas começaram a comprar terras numa encosta rochosa, ligada a Bangor por apenas uma trilha de carroça íngreme e sulcada. Construíram grupos de casas de pedra de dois andares, com tetos de ardósia, em ruas estreitas que se estendiam de alto a baixo na encosta. Ergueram uma igreja e batizaram-na de Nossa Senhora do Monte Carmelo. A via principal onde ela se localizava ganhou o nome de avenida Garibaldi, em homenagem ao grande herói da unificação italiana. No princípio, chamaram sua cidade de Nova Itália. Mas logo mudaram o nome para Roseto, que pareceu mais apropriado, pois quase todos os seus moradores eram procedentes da mesma aldeia na Itália.
Em 1896, um jovem e dinâmico sacerdote – padre Pasquale de Nisco – assumiu a Igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo. De Nisco criou sociedades espirituais e organizou festas. Incentivou as pessoas a limpar os terrenos e plantar cebola, feijão, batata e árvores frutíferas nos grandes quintais de suas casas. Distribuiu sementes e mudas. Roseto ganhou vida. A população passou a criar porcos e a cultivar uvas para o vinho caseiro. Escolas, um parque, um convento e um cemitério foram construídos. Pequenas lojas, confeitarias, restaurantes e bares começaram a se instalar ao longo da Avenida Garibaldi. Mais de 12 fábricas surgiram, produzindo blusas para o comércio de roupas.
Na vizinha Bangor, a população era predominantemente galesa e inglesa. Na outra cidade mais próxima, a concentração era de alemães. Dadas as relações hostis entre ingleses, alemães e italianos naquela época, Roseto continuou a abrigar exclusivamente sua própria população. Quem subisse e descesse suas ruas nas primeira décadas do século XX ouviria apenas italiano, mas não qualquer italiano – somente o típico dialeto sulista de Foggia, falado na Roseto européia. A Roseto americana era seu próprio mundo minúsculo e auto-suficiente – praticamente desconhecido pela sociedade em volta. E poderia ter permanecido assim não fosse um homem chamado Stewart Wolf.
Wolf era médico. Especialista em estômago e digestão, lecionava na Faculdade de Medicina da Universidade de Oklahoma. Passava os verões numa fazenda na Pensilvânia, não longe de Roseto – embora isso não significasse grande coisa, pois a cidade estava tão concentrada em seu próprio mundo que era possível morar ao lado e não saber muito sobre ela. “Certa cez – acho que no final da década de 1950 –, eu estava lá e fui convidado para dar uma palestra na sociedade médica local”, Wolf contou, anos depois, numa entrevista. “Após a apresentação, um dos médicos me chamou para tomar uma cerveja. Enquanto bebíamos, ele disse: ‘Pratico a medicina há 17 anos. Recebo pacientes de toda a região, mas raramente encontro alguém de Roseto com menos de 65 anos que tenha doença cardíaca.”
Wolf ficou surpreso. Tratava-se da década de 1950, anos antes do advento dos remédios que reduzem o colesterol e das rigorosas medidas de prevenção de problemas cardíacos. Os infartos constituíam uma epidemia nos Estados Unidos – eram a principal causa de mortes em homens com menos de 65 anos. A experiência mostrava que era impossível ser médico naquela época e não se deparar com esse tipo de doença.
Wolf decidiu investigar. Conseguiu o apoio de alguns alunos e colegas da Universidade de Oklahoma. Eles reuniram os atestados de óbito dos moradores da cidade, procurando os mais antigos que conseguissem obter. Analisaram os registros médicos, leram os históricos e traçaram as genealogias das famílias. “Decidimos fazer um estudo preliminar. Começamos em 1961. O prefeito permitiu que usássemos a sala do conselho municipal. Instalamos pequenas cabines para coletar sangue e fazer eletrocardiogramas. Ficamos lá durante quatro semanas. Depois, as autoridades nos cederam a escola, onde trabalhamos durante o verão. Convidamos a população inteira de Roseto para ser testada”, conta Wolf.
Os resultados foram surpreendentes. Em Roseto, quase ninguém com menos de 55 anos havia morrido de ataque cardíaco ou mostrava sintomas de problemas do coração. Para homens acima de 65 anos, a taxa de mortalidade por doença cardíaca era cerca de metade da que se registrava nos Estados Unidos de modo geral. Além disso, a taxa de mortalidade por todas as causas naquela cidade era, espantosamente, 30 a 35% menor do que o estimado.
Wolf convidou para ajudá-lo o amigo John Bruhn, sociólogo da Universidade de Oklahoma. “Contratei estudantes de medicina e alunos de sociologia como entrevistadores. Fomos de casa em casa em Roseto. Conversamos com toda pessoa maior de 21 anos”, Bruhn se lembra. Embora isso tenha acontecido há mais de 50 anos, ele deixou escapar uma sensação de espanto ao mencionar o que descobrira. “Não havia suicídios, alcoolismo nem vício de drogas. O número de crimes era mínimo. Ninguém dependia da previdência social. Então procuramos casos de úlcera péptica. Não havia. Aquelas pessoas estavam morrendo de velhice. Nada mais.”
Os colegas de profissão de Wolf tinham um nome para um lugar como Roseto – uma cidade que estava à margem da experiência do dia-a-dia, onde as regras normais não se aplicavam. Roseto era uma outlier.
A primeira hipótese imaginada por Wolf foi a de que os habitantes de Roseto seguiam práticas alimentares do Velho Mundo que os tornavam mais saudáveis do que os demais americanos. Mas em pouco tempo ele constatou que isso não era verdade. Aquelas pessoas cozinhavam com banha de porco, e não com azeite de oliva, a saudável opção usada na cozinha mediterrânea. Na Itália, a pizza era uma crosta fina com sal, azeite e talvez anchovas, tomate e cebola. Na Pensilvânia, ela combinava massa de pão com salsicha, pepperoni, salame, presunto e às vezes ovos. Doces como biscotti e taralli, que na Itália costumavam ser reservados para o Natal e a Páscoa, em Roseto eram consumidos o ano inteiro. Quando Wolf pediu que nutricionistas analisassem os hábitos alimentares da população local, constatou que 41% das calorias – uma porcentagem imensa – eram provenientes de gorduras. E nenhum morador daquela cidade acordava de madrugada para praticar yoga ou correr 10Km. Muitos eram fumantes inveterados e enfrentavam obesidade.
Se a causa daquela saúde acima da média não estava na dieta nem na prática de exercícios físicos, estaria então na genética? Como aquelas pessoas constituíam um grupo coeso originário da mesma região da Itália, Wolf passou a considerar a possibilidade de que elas pertencessem a uma estirpe particularmente robusta, com grande resistência a doenças. Então, rastreou parentes desses indivíduos em outras regiões dos Estados Unidos para ver se eles compartilhavam a saúde notável dos primos da Pensilvânia. Não foi o caso.
Wolf examinou em seguida a própria região de Roseto. Será que viver nos contrafortes do lesta da Pensilvânia poderia oferecer algum benefício à saúde? As duas cidades mais próximas dali eram Bangor, situada um pouco abaixo dos montes, e Nazareth, a alguns quilômetros de distância. Ambas tinham mais ou menos o tamanho de Roseto e eram habitadas por imigrantes europeus também muito trabalhadores. Wolf examinou os registros médicos das duas cidades. Para homens acima de 65 anos, as taxas de mortalidade por doenças cardíacas em Nazareth e Bangor eram cerca de três vezes mais altas do que em Roseto. Outra pista falsa.
Wolf passou a desconfiar de que o segredo de Roseto não era nada que haviam imaginado, como dieta, exercícios físicos, genes e geografia – tinha que ser a própria Roseto. À medida que começaram a caminhar pela cidade e a falar com os moradores, Wolf e Bruhn descobriram o motivo. Observaram como as pessoas interagiam, parando para conversar em italiano na rua ou cozinhando umas para as outras nos quintais. Tomaram conhecimento dos clãs familiares que se mantinham sob a estrutura social do lugar. Viram como em muitas casas três gerações moravam sob o mesmo teto – e o respeito dedicado aos avós. Foram à missa na Igreja Nossa Senhora do Monte Carmelo e observaram o efeito unificador e calmante daquele ambiente. Contaram 22 organizações cívicas em uma cidade com pouco menos de 2 mil pessoas. Perceberam o espírito igualitário particular da comunidade, que desestimulava os ricos a ostentar o sucesso e ajudava os malsucedidos a encobrir seus fracassos.
Ao transplantarem a cultura paesani do sul da Itália para os montes do lesta da Pensilvânia, aquelas pessoas criaram uma estrutura social altamente protetora que era capaz de isolá-las das pressões do mundo moderno. Elas eram saudáveis por causa do lugar onde viviam, do mundo que haviam criado para si mesmas em sua minúscula cidade nas montanhas.
“Ainda me lembro de quando fui a Roseto pela primeira vez. Naquela época víamos três gerações reunidas nas refeições em família. Havia todas aquelas padarias, as pessoas subindo e descendo as ruas, sentando-se nas varandas para conversar umas com as outras, as fábricas de blusas onde as mulheres trabalhavam durante o dia enquanto os homens se ocupavam nas pedreiras de ardósia. Aquilo era mágico”, diz Bruhn.
Quando Bruhn e Wolf apresentaram suas descobertas à comunidade médica, enfrentaram uma grande reação de ceticismo. Eles participaram de conferências em que seus colegas estavam exibindo longas relações de dados, dispostos em gráficos complexos, para se referir a um tipo específico de gene ou de processo fisiológico. Eles, por sua vez, estavam falando dos benefícios misteriosos e mágicos de parar para conversar com as pessoas na rua e dos efeitos positivos de familiares de três gerações de viverem sob o mesmo teto. Segundo o pensamento convencional da época, uma vida longa dependia, em grande parte, de quem éramos, ou seja, de nossos genes. E também das decisões que tomávamos em relação à escolha dos alimentos, da nossa opção quanto à prática de exercícios físicos e, ainda, da eficácia do sistema médico. Ninguém estava acostumado a associar a saúde à comunidade.
Wolf e Bruhn tiveram que convencer a área médica a pensar na saúde e nas doenças cardíacas de um modo totalmente diferente. Afinal, não dá para entender por que alguém é saudável analisando apenas suas opções ou ações pessoais. É necessário olhar além do indivíduo. E também conhecer a cultura da qual ele faz parte, saber quem são seus amigos, sua família e a cidade de origem de seus familiares. É preciso ainda aceitar a idéia de que os valores do mundo que habitamos e as pessoas que nos cercam exercem um grande efeito em quem nós somos. Neste livro, quero fazer por nossa compreensão do sucesso o que Stewart Wolf fez pelo entendimento que agora temos da saúde.”
Fonte: OUTLIERS The Story of Success; Malcolm Gladwell.
Durante séculos, os paesani, ou camponeses, de Roseto trabalharam nas pedreiras de mármore das montanhas em torno da cidade ou cultivaram os campos no vale abaixo, descendo de 6 a 8km de manhã e, depois, fazendo o longo percurso de volta à noite. A vida era dura. Os moradores desse lugar mal sabiam ler, eram paupérrimos e não tinham muita esperança de melhorar economicamente. Foi quando no final do século XIX chegou à região a notícia de que havia uma terra de oportunidades do outro lado do oceano.
Em janeiro de 1882, um grupo de 11 moradores da cidade – 10 homens e um menino – zarparam para Nova York. Passaram a primeira noite nos Estados Unidos dormindo no chão de uma taverna em Mulberry Street, na Pequena Itália de Manhattan. Depois se aventuraram para o oeste, até encontrarem trabalho numa pedreira de ardósia a 145Km da cidade, perto de Bangor, Pensilvânia. No ano seguinte, mais 15 pessoas de Roseto trocaram a Itália pela América, e vários membros desse grupo foram se juntar aos que já haviam chegado. Esses novos imigrantes, por sua vez, enviaram notícias a Roseto sobre a promessa do Novo Mundo. Em pouco tempo, outros grupos de conterrâneos seus começaram a fazer as malas e rumar para a Pensilvânia. O pequeno fluxo inicial de imigrantes acabou se transformando numa torrente. Em 1894, cerca de 1.200 habitantes de Roseto solicitaram passaportes para os Estados Unidos, deixando ruas inteiras de sua cidade natal completamente abandonadas.
Essas pessoas começaram a comprar terras numa encosta rochosa, ligada a Bangor por apenas uma trilha de carroça íngreme e sulcada. Construíram grupos de casas de pedra de dois andares, com tetos de ardósia, em ruas estreitas que se estendiam de alto a baixo na encosta. Ergueram uma igreja e batizaram-na de Nossa Senhora do Monte Carmelo. A via principal onde ela se localizava ganhou o nome de avenida Garibaldi, em homenagem ao grande herói da unificação italiana. No princípio, chamaram sua cidade de Nova Itália. Mas logo mudaram o nome para Roseto, que pareceu mais apropriado, pois quase todos os seus moradores eram procedentes da mesma aldeia na Itália.
Em 1896, um jovem e dinâmico sacerdote – padre Pasquale de Nisco – assumiu a Igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo. De Nisco criou sociedades espirituais e organizou festas. Incentivou as pessoas a limpar os terrenos e plantar cebola, feijão, batata e árvores frutíferas nos grandes quintais de suas casas. Distribuiu sementes e mudas. Roseto ganhou vida. A população passou a criar porcos e a cultivar uvas para o vinho caseiro. Escolas, um parque, um convento e um cemitério foram construídos. Pequenas lojas, confeitarias, restaurantes e bares começaram a se instalar ao longo da Avenida Garibaldi. Mais de 12 fábricas surgiram, produzindo blusas para o comércio de roupas.
Na vizinha Bangor, a população era predominantemente galesa e inglesa. Na outra cidade mais próxima, a concentração era de alemães. Dadas as relações hostis entre ingleses, alemães e italianos naquela época, Roseto continuou a abrigar exclusivamente sua própria população. Quem subisse e descesse suas ruas nas primeira décadas do século XX ouviria apenas italiano, mas não qualquer italiano – somente o típico dialeto sulista de Foggia, falado na Roseto européia. A Roseto americana era seu próprio mundo minúsculo e auto-suficiente – praticamente desconhecido pela sociedade em volta. E poderia ter permanecido assim não fosse um homem chamado Stewart Wolf.
Wolf era médico. Especialista em estômago e digestão, lecionava na Faculdade de Medicina da Universidade de Oklahoma. Passava os verões numa fazenda na Pensilvânia, não longe de Roseto – embora isso não significasse grande coisa, pois a cidade estava tão concentrada em seu próprio mundo que era possível morar ao lado e não saber muito sobre ela. “Certa cez – acho que no final da década de 1950 –, eu estava lá e fui convidado para dar uma palestra na sociedade médica local”, Wolf contou, anos depois, numa entrevista. “Após a apresentação, um dos médicos me chamou para tomar uma cerveja. Enquanto bebíamos, ele disse: ‘Pratico a medicina há 17 anos. Recebo pacientes de toda a região, mas raramente encontro alguém de Roseto com menos de 65 anos que tenha doença cardíaca.”
Wolf ficou surpreso. Tratava-se da década de 1950, anos antes do advento dos remédios que reduzem o colesterol e das rigorosas medidas de prevenção de problemas cardíacos. Os infartos constituíam uma epidemia nos Estados Unidos – eram a principal causa de mortes em homens com menos de 65 anos. A experiência mostrava que era impossível ser médico naquela época e não se deparar com esse tipo de doença.
Wolf decidiu investigar. Conseguiu o apoio de alguns alunos e colegas da Universidade de Oklahoma. Eles reuniram os atestados de óbito dos moradores da cidade, procurando os mais antigos que conseguissem obter. Analisaram os registros médicos, leram os históricos e traçaram as genealogias das famílias. “Decidimos fazer um estudo preliminar. Começamos em 1961. O prefeito permitiu que usássemos a sala do conselho municipal. Instalamos pequenas cabines para coletar sangue e fazer eletrocardiogramas. Ficamos lá durante quatro semanas. Depois, as autoridades nos cederam a escola, onde trabalhamos durante o verão. Convidamos a população inteira de Roseto para ser testada”, conta Wolf.
Os resultados foram surpreendentes. Em Roseto, quase ninguém com menos de 55 anos havia morrido de ataque cardíaco ou mostrava sintomas de problemas do coração. Para homens acima de 65 anos, a taxa de mortalidade por doença cardíaca era cerca de metade da que se registrava nos Estados Unidos de modo geral. Além disso, a taxa de mortalidade por todas as causas naquela cidade era, espantosamente, 30 a 35% menor do que o estimado.
Wolf convidou para ajudá-lo o amigo John Bruhn, sociólogo da Universidade de Oklahoma. “Contratei estudantes de medicina e alunos de sociologia como entrevistadores. Fomos de casa em casa em Roseto. Conversamos com toda pessoa maior de 21 anos”, Bruhn se lembra. Embora isso tenha acontecido há mais de 50 anos, ele deixou escapar uma sensação de espanto ao mencionar o que descobrira. “Não havia suicídios, alcoolismo nem vício de drogas. O número de crimes era mínimo. Ninguém dependia da previdência social. Então procuramos casos de úlcera péptica. Não havia. Aquelas pessoas estavam morrendo de velhice. Nada mais.”
Os colegas de profissão de Wolf tinham um nome para um lugar como Roseto – uma cidade que estava à margem da experiência do dia-a-dia, onde as regras normais não se aplicavam. Roseto era uma outlier.
A primeira hipótese imaginada por Wolf foi a de que os habitantes de Roseto seguiam práticas alimentares do Velho Mundo que os tornavam mais saudáveis do que os demais americanos. Mas em pouco tempo ele constatou que isso não era verdade. Aquelas pessoas cozinhavam com banha de porco, e não com azeite de oliva, a saudável opção usada na cozinha mediterrânea. Na Itália, a pizza era uma crosta fina com sal, azeite e talvez anchovas, tomate e cebola. Na Pensilvânia, ela combinava massa de pão com salsicha, pepperoni, salame, presunto e às vezes ovos. Doces como biscotti e taralli, que na Itália costumavam ser reservados para o Natal e a Páscoa, em Roseto eram consumidos o ano inteiro. Quando Wolf pediu que nutricionistas analisassem os hábitos alimentares da população local, constatou que 41% das calorias – uma porcentagem imensa – eram provenientes de gorduras. E nenhum morador daquela cidade acordava de madrugada para praticar yoga ou correr 10Km. Muitos eram fumantes inveterados e enfrentavam obesidade.
Se a causa daquela saúde acima da média não estava na dieta nem na prática de exercícios físicos, estaria então na genética? Como aquelas pessoas constituíam um grupo coeso originário da mesma região da Itália, Wolf passou a considerar a possibilidade de que elas pertencessem a uma estirpe particularmente robusta, com grande resistência a doenças. Então, rastreou parentes desses indivíduos em outras regiões dos Estados Unidos para ver se eles compartilhavam a saúde notável dos primos da Pensilvânia. Não foi o caso.
Wolf examinou em seguida a própria região de Roseto. Será que viver nos contrafortes do lesta da Pensilvânia poderia oferecer algum benefício à saúde? As duas cidades mais próximas dali eram Bangor, situada um pouco abaixo dos montes, e Nazareth, a alguns quilômetros de distância. Ambas tinham mais ou menos o tamanho de Roseto e eram habitadas por imigrantes europeus também muito trabalhadores. Wolf examinou os registros médicos das duas cidades. Para homens acima de 65 anos, as taxas de mortalidade por doenças cardíacas em Nazareth e Bangor eram cerca de três vezes mais altas do que em Roseto. Outra pista falsa.
Wolf passou a desconfiar de que o segredo de Roseto não era nada que haviam imaginado, como dieta, exercícios físicos, genes e geografia – tinha que ser a própria Roseto. À medida que começaram a caminhar pela cidade e a falar com os moradores, Wolf e Bruhn descobriram o motivo. Observaram como as pessoas interagiam, parando para conversar em italiano na rua ou cozinhando umas para as outras nos quintais. Tomaram conhecimento dos clãs familiares que se mantinham sob a estrutura social do lugar. Viram como em muitas casas três gerações moravam sob o mesmo teto – e o respeito dedicado aos avós. Foram à missa na Igreja Nossa Senhora do Monte Carmelo e observaram o efeito unificador e calmante daquele ambiente. Contaram 22 organizações cívicas em uma cidade com pouco menos de 2 mil pessoas. Perceberam o espírito igualitário particular da comunidade, que desestimulava os ricos a ostentar o sucesso e ajudava os malsucedidos a encobrir seus fracassos.
Ao transplantarem a cultura paesani do sul da Itália para os montes do lesta da Pensilvânia, aquelas pessoas criaram uma estrutura social altamente protetora que era capaz de isolá-las das pressões do mundo moderno. Elas eram saudáveis por causa do lugar onde viviam, do mundo que haviam criado para si mesmas em sua minúscula cidade nas montanhas.
“Ainda me lembro de quando fui a Roseto pela primeira vez. Naquela época víamos três gerações reunidas nas refeições em família. Havia todas aquelas padarias, as pessoas subindo e descendo as ruas, sentando-se nas varandas para conversar umas com as outras, as fábricas de blusas onde as mulheres trabalhavam durante o dia enquanto os homens se ocupavam nas pedreiras de ardósia. Aquilo era mágico”, diz Bruhn.
Quando Bruhn e Wolf apresentaram suas descobertas à comunidade médica, enfrentaram uma grande reação de ceticismo. Eles participaram de conferências em que seus colegas estavam exibindo longas relações de dados, dispostos em gráficos complexos, para se referir a um tipo específico de gene ou de processo fisiológico. Eles, por sua vez, estavam falando dos benefícios misteriosos e mágicos de parar para conversar com as pessoas na rua e dos efeitos positivos de familiares de três gerações de viverem sob o mesmo teto. Segundo o pensamento convencional da época, uma vida longa dependia, em grande parte, de quem éramos, ou seja, de nossos genes. E também das decisões que tomávamos em relação à escolha dos alimentos, da nossa opção quanto à prática de exercícios físicos e, ainda, da eficácia do sistema médico. Ninguém estava acostumado a associar a saúde à comunidade.
Wolf e Bruhn tiveram que convencer a área médica a pensar na saúde e nas doenças cardíacas de um modo totalmente diferente. Afinal, não dá para entender por que alguém é saudável analisando apenas suas opções ou ações pessoais. É necessário olhar além do indivíduo. E também conhecer a cultura da qual ele faz parte, saber quem são seus amigos, sua família e a cidade de origem de seus familiares. É preciso ainda aceitar a idéia de que os valores do mundo que habitamos e as pessoas que nos cercam exercem um grande efeito em quem nós somos. Neste livro, quero fazer por nossa compreensão do sucesso o que Stewart Wolf fez pelo entendimento que agora temos da saúde.”
Fonte: OUTLIERS The Story of Success; Malcolm Gladwell.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
LEITURA E INTELIGÊNCIA
O professor Pierluigi Piazzi enfatiza que é possível desenvolver
(aumentar a inteligência) a partir de uma atividade fundamental que é comum a
qualquer estudante. A leitura.
É conhecido que o brasileiro lê pouco e muitas vezes não lê
nada, é o que aponta a pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, 56% dos
brasileiros são considerados leitores, aqueles que leram pelo menos 1 livro nos
últimos três meses durante o ano. A média de livros por ano gira em torno de 2
livros. Isso é pouco!
As pessoas que mais influenciam no ato de ler são as mães e
depois os professores, a iniciação na atividade geralmente ocorre em ambiente
doméstico, e muitas vezes é fruto de algum exemplo visível ao leitor iniciante.
Com 50 anos de prática na área do ensino, o professor Piazzi destaca que tanto a leitura
de livros técnicos, quanto a leitura de ficção são importantes para
desenvolvimento da inteligência. Especificamente a leitura de ficção é
responsável por enriquecer o universo
interior do leitor e com isso aumentar as conexões entre os dendritos (
estruturas dos neurônios) responsáveis por aumentar a inteligência e capacitar
o cérebro. Essa é apenas uma das muitas dicas para desenvolver a inteligência apresentada
de forma muito clara nessa entrevista.Pesquisa_Retratos_da_Leitura_no_Brasil
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
sábado, 21 de janeiro de 2017
Homem suficiente para o trabalho
Durante a primeira guerra americana, quando um oficial mandou seus soldados cortarem algumas árvores para fazerem uma ponte. Não havia homens suficientes, e o trabalho progredia muito lentamente. Um homem de aparência importante, que estava passando a cavalo, falou com o oficial responsável quando este dava ordens aos subordinados, mas ele mesmo não fazia nada.
_ Você não tem homens suficientes para o trabalho, não é?
_ Não senhor. Precisamos de ajuda.
_ Por que você mesmo não põe mãos à obra? - perguntou o homem no cavalo.
_ Eu senhor? Por quê? Sou um cabo - respondeu o oficial, aparentemente ofendido com a sugestão.
_ Ah, é verdade - respondeu o outro calmamente e, descendo do cavalo, pôs-se a trabalhar com os homens até estar concluído o serviço. Depois, montou novamente e, enquanto saía, falou para o oficial:
_ Cabo, da próxima vez que tiver uma tarefa a cumprir e poucos homens para o serviço, avise ao comandante superior, e eu tornarei a vir.
Este era o general George Washington. ( foi o primeiro presidente dos Estados Unidos).
_ Você não tem homens suficientes para o trabalho, não é?
_ Não senhor. Precisamos de ajuda.
_ Por que você mesmo não põe mãos à obra? - perguntou o homem no cavalo.
_ Eu senhor? Por quê? Sou um cabo - respondeu o oficial, aparentemente ofendido com a sugestão.
_ Ah, é verdade - respondeu o outro calmamente e, descendo do cavalo, pôs-se a trabalhar com os homens até estar concluído o serviço. Depois, montou novamente e, enquanto saía, falou para o oficial:
_ Cabo, da próxima vez que tiver uma tarefa a cumprir e poucos homens para o serviço, avise ao comandante superior, e eu tornarei a vir.
Este era o general George Washington. ( foi o primeiro presidente dos Estados Unidos).
Ella Lyman Cabot
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
A FORMAÇÃO PESSOAL
"A evidência acumulada sobre a natureza humana nos diz que a única melhoria que temos controle é a melhoria de nós mesmos"
Roger Scruton
domingo, 24 de janeiro de 2016
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
O HÁBITO
William James
Não adianta possuir um grande reservatório de máximas ou possuir muitos bons sentimentos enquanto não se aproveita todas as oportunidades concretas de agir, não ocorre nenhuma alteração para melhora no caráter. De meras boas intenções, o inferno está proverbialmente atulhado. Isso é consequência óbvia dos princípios que estabelecemos. Um "caráter" como diz J. S. Mill, " é uma vontade completamente moldada"; e uma vontade, no sentido a que ele se refere, é um agregado de tendências a agir de modo firme, direito e definitivo em todas as principais emergências da vida. Uma tendência a agir torna-se efetivamente arraigada em nós apenas em proporção à frequência ininterrupta com a qual as ações realmente ocorrem; o cérebro se "molda" à sua execução. Cada vez que uma resolução ou um claro fulgor de sentimento se evaporam sem gerar nenhum fruto de ordem prática, é pior que simplesmente perder uma chance: o que advém é a obstrução definitiva do caminho habitual de descarga das futuras resoluções e emoções. Não há caráter humano mais desprezível do que o débil sentimentalista e sonhador, que passa a vida num mar encapelado de sensibilidade e emoção, mas que nunca executa uma valorosa ação concreta.
Não são apenas as linhas particulares de descarga, mas também suas formas gerais que são entalhadas no cérebro a partir do hábito. Por exemplo, se deixarmos nossas emoções se evaporarem, elas se acostumam a evaporar; assim, há razões para supor que se nos esquivarmos com frequência de fazer um dado esforço, antes que o percebamos a capacidade de fazer esse esforço terá desaparecido. E se nos sujeitarmos a deixar vaguear a atenção, ela ficará dispersa o tempo todo. Atenção e esforço são... apenas dois nomes para o mesmo fato psíquico. A que processos cerebrais correspondem, não sabemos. A razão mais forte para crer que dependem, de alguma forma, dos processos cerebrias, e não são meros atos do espírito, é apenas esse fato - em certo grau, parecem sujeito à lei do hábito, que é uma lei material. Uma máxima prática conclusiva, relativa aos hábitos da vontade, que podemos então aqui oferecer seria: mantenha viva a faculdade do esforço através de algum exercício gratuito, todos os dias. Isto é, seja sistematicamente ascético ou heróico em pequenos aspectos irrelevantes; cada dia, ou em dias alternados, faça algo pelo simples motivo de que você preferiria não o fazer. Assim, quando se aproximarem épocas de tenebrosas exigências, você não será surpreendido fragilizado ou destreinado para enfrentar a prova. Esse tipo de ascetismo é como um seguro que se paga pela casa e pelos bens. Não é bom pagar a mensalidade, que talvez nunca lhe dê retorno algum. Mas se o incêndio realmente ocorrer, aqueles pequenos esforços salvarão a ruína. O mesmo acontece com quem se disciplina diariamente com hábitos de atenção concentrada, vontade enérgica e autonegação de coisas desnecessárias. Permanece firme como uma torre, enquanto todo o resto se abala, e seus companheiros mortais mais frágeis voam como farelo na ventania.
O livro das virtudes II O compasso moral William j. Bennett Editora Nova Fronteira p. 226
quarta-feira, 22 de julho de 2015
NUNCA NOS RENDEREMOS
13 de maio de 1940
We Shall Fight on the Beaches
"Muito embora grandes extensões da Europa e antigos e famosos Estados tenham caído ou possam cair nos punhos da Gestapo e de todo o odioso aparato do domínio nazista, nós não devemos enfraquecer ou fracassar.Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o custo.Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos, e se, o que eu não acredito nem por um momento, esta ilha, ou uma grande porção dela fosse subjugada e passasse fome, então nosso Império del além-mar, armado e guardado pela Frota Britânica, prosseguiria com a luta, até que, na boa hora de Deus, o Novo Mundo, com toda a sua força e poder, daria um passo em frente para o resgate e libertação do Velho." Sir Winston Churchill
sábado, 11 de julho de 2015
domingo, 5 de abril de 2015
PÁSCOA
Cristo ressuscitado liberta do medo e traz A ESPERANÇA. O evangelho narra a aparição de Jesus aos Apóstolos no dia da Páscoa, primeiro dia da semana, e o episódio de Tomé oito dias depois.
domingo, 11 de janeiro de 2015
100 LIVROS INDICADOS PELO PROF JOSÉ MONIR NASSER
| Autor | Obra | Língua |
| Mortimer Adler / Charles Van Doren | Como Ler um Livro | Português, Inglês |
| Fiódor Dostoiévski | Crime e Castigo | Português, Inglês |
| Albert Camus | O Estrangeiro | Português |
| Viktor Frankl | Em Busca de Sentido | Português, Inglês |
| Jose Ortega y Gasset | A Rebelião das Massas | Português, Espanhol |
| Joseph Conrad | O Coração das Trevas | Português, Inglês |
| Platão | Apologia de Sócrates | Português, Inglês |
| Fiódor Dostoiévski | Os Irmãos Karamázov | Português, Inglês |
| Giovanni Reale | O Saber dos Antigos | |
| Stendhal | O Vermelho e o Negro | Português, Inglês |
| Olavo de Carvalho | O Jardim das Aflições | Português |
| Robert Musil | O Homem sem Qualidades | Português |
| René Guénon | A Crise do Mundo Moderno | Português |
| Aldous Huxley | Admirável Mundo Novo | Português |
| Albert Camus | O Homem Revoltado | Português, Inglês |
| Dante Alighieri | A Divina Comédia | Português, Inglês |
| William Shakespeare | Hamlet | Português, Inglês |
| Homero | Ilíada | Português, Inglês |
| Albert Camus | A Peste | Português, Inglês |
| Franz Kafka | O Processo | Português |
| Platão | Fedro | Português, Inglês |
| Aldous Huxley | A Ilha | Português |
| Sófocles | Antígona | Português |
| Thomas Mann | A Montanha Mágica | Português |
| Franz Kafka | A Metamorfose | Português, Inglês |
| Severino Boécio | A Consolação da Filosofia | Inglês, Espanhol |
| William Shakespeare | Rei Lear | Português, Inglês |
| Fiódor Dostoiévski | Os Demônios | Espanhol, Inglês |
| Bíblia | O Livro de Jó | Português, Inglês |
| Ésquilo | Prometeu Acorrentado | Português |
| Franz Kafka | O Castelo | Português |
| Wolfgang von Goethe | Fausto (Primeiro) | Português |
| Homero | Odisséia | Português, Inglês |
| William Shakespeare | A Tempestade | Português, Inglês |
| Molière | O Misantropo | Francês, Espanhol, Inglês |
| Miguel de Cervantes | Dom Quixote | Português, Espanhol, Inglês |
| J. R. R. Tolkien | O Senhor dos Anéis | Português |
| George Orwell | 1984 | Português, Inglês |
| Alessandro Manzoni | Os Noivos | Italiano, Espanhol, Inglês |
| Wolfgang von Goethe | Fausto (Segundo) | Português |
| Fiódor Dostoiévski | O Idiota | Português, Inglês |
| William Shakespeare | Otelo | Português, Inglês |
| Lev Tolstói | A Morte de Ivan Ilitch | Português, Inglês |
| Santo Agostinho | Confissões | Português, Inglês |
| Julien Benda | A Traição dos Intelectuais | Francês |
| Sófocles | Édipo Rei | Português |
| Hesíodo | Teogonia | Português |
| Bíblia | Gênesis | Português, Inglês |
| Racine | Fedra | Português |
| Thomas Mann | Doutor Fausto | Português |
| Honoré de Balzac | Ilusões Perdidas | Português, Francês, Inglês |
| Samuel Beckett | Esperando Godot | Português |
| Luís de Camões | Os Lusíadas | Português |
| Platão | O Banquete | Português, Inglês |
| Lorenzo da Ponte | Don Giovanni | Português, Italiano, Inglês |
| William Shakespeare | Macbeth | Português, Inglês |
| James Joyce | Retrato de um Artista Quando Jovem | Português, Inglês |
| Ésquilo | Orestéia | Português |
| Richard Wagner | Tristão e Isolda | Português |
| Honoré de Balzac | Eugénie Grandet | Português, Inglês, Francês |
| Fiódor Dostoiévski | Notas do Subsolo | Português, Inglês |
| Daniel Defoe | Moll Flanders | Português, Inglês |
| Hermann Broch | A Morte de Virgílio | Inglês, Espanhol |
| René Guénon | O Reino da Quantidade | Inglês, Espanhol |
| Nikolai Gogol | Almas Mortas | Português, Inglês |
| Herman Melville | Moby Dick | Português, Inglês |
| T. S. Eliot | Terra Arrasada | Português, Inglês |
| William Shakespeare | Mercador de Veneza | Português, Inglês |
| Georges Bernanos | Diário de um Pároco de Aldeia | Português, Francês |
| Stendhal | A Cartuxa de Parma | Francês, Espanhol |
| Luigi Pirandello | Seis Personagens à Procura de um Autor | Português |
| Wolfgang von Goethe | Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister | Português, Inglês |
| Eugène Ionesco | O Rinoceronte | Português |
| Platão | Menon | Português, Inglês |
| Henrik Ibsen | Um Inimigo do Povo | Inglês |
| G. K. Chesterton | Ortodoxia | Português, Inglês |
| Gustave Flaubert | Madame Bovary | Português, Inglês, Francês |
| James Joyce | Ulisses | Português, Inglês |
| Marcel Proust | No Caminho de Swann | Português, Inglês |
| Hermann Hesse | O Jogo das Contas de Vidro | Inglês |
| William Shakespeare | Sonho de uma Noite de Verão | Português, Inglês |
| Constantin Noïka | As Seis Doenças do Mundo Contemporâneo | Português |
| Machado de Assis | Memórias Póstumas de Brás Cubas | Português |
| Santo Agostinho | Sobre o Sermão da Montanha | Inglês |
| Thomas Mann | Morte em Veneza | Português, Inglês |
| Heinrich Von Kleist | Michael Kohlhaas | Português, Inglês |
| William Shakespeare | Noites de Reis | Português, Inglês |
| Platão | República de Platão | Português, Inglês |
| Jacob Wassermann | O Processo Maurizius | Português |
| Nikolai Gogol | O Inspetor Geral | Português |
| Lev Tolstói | Ana Karênina | Português, Inglês |
| Alexandre Soljenitzin | Um Dia na Vida de Ivan Denisovitch | Inglês |
| Molière | Tartufo | Português |
| T. S. Eliot | Notas para uma Definição de Cultura | Português |
| Eurípedes | Medéia | Português |
| Georg Büchner | Woyzeck | Português, Espanhol |
| Honoré de Balzac | Père Goriot | Inglês, Francês |
| Fernando Pessoa | Mensagem | Português |
| Antônio Ferreira | Castro | Português |
| Virgílio | Eneida | Português |
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
OS SENTIMENTOS E A CONDUTA HUMANA
Jesus e a pomba de Stalin
Olavo de CarvalhoO Globo, 20 de outubro de 2001
Quando Cristo disse: “Na verdade amais o que deveríeis odiar, e odiais o que deveríeis amar”, Ele ensinou da maneira mais explícita que os sentimentos não são guias confiáveis da conduta humana: antes de podermos usá-los como indicadores do certo e do errado, temos de lhes ensinar o que é certo e errado. Os sentimentos só valem quando subordinados à razão e ao espírito.
Razão não é só pensamento lógico: reduzi-la a isso é uma idolatria dos meios acima dos fins, que termina num fetichismo macabro. Razão é o senso da unidade do real, que se traduz na busca da coesão entre experiência e memória, percepções e pensamentos, atos e palavras etc. A capacidade lógica é uma expressão parcial e limitada desse senso. Também são expressões dele o senso estético e o senso ético: o primeiro anseia pela unidade das formas sensíveis, o segundo pela unidade entre saber e agir. Tudo isso é razão.
Espírito é aquilo que inspira a razão a buscar a chave da unidade da visão do mundo no supremo Bem de todas as coisas e não num detalhe acidental qualquer, tomado arbitrariamente como princípio de explicação universal, como algumas escolas filosóficas fazem com a linguagem, outras com a História, outras com o inconsciente etc. O espírito é o topo do edifício da razão, que por ele se abre para o sentido do Bem infinito, libertando-se da tentação de enrijecer-se num fetichismo trágico ou utópico.
Nem a razão nem o espírito se impõem. Só nos abrimos a eles por livre vontade. A abertura para a razão vem essencialmente da caridade, do amor ao próximo, pelo qual o homem renuncia a impor seu desejo e aceita submeter-se ao diálogo, à prova, ao senso das proporções e, em suma, ao primado da realidade. A abertura para a razão é educação. Educação vem de ex ducere, que significa levar para fora. Pela educação a alma se liberta da prisão subjetiva, do egocentrismo cognitivo próprio da infância, e se abre para a grandeza e a complexidade do real. A meta da educação é a conquista da maturidade. O homem maduro -- o spoudaios de que fala Aristóteles -- é aquele que tornou sua alma dócil à razão, fazendo da aceitação da realidade o seu estado de ânimo habitual e capacitando-se, por esse meio, a orientar sua comunidade para o bem. Este ponto é crucial: ninguém pode guiar a comunidade no caminho do bem antes de tornar-se maduro no sentido de Aristóteles. Líderes revolucionários e intelectuais ativistas são apenas homens imaturos que projetam sobre a comunidade seus desejos subjetivos, seus temores e suas ilusões pueris, produzindo o mal com o nome de bem.
A abertura ao espírito é um ato de confiança prévia no bem supremo da existência, ato sem o qual a razão perde o impulso ascendente que a anima e, fugindo do infinito, se aprisiona em alguma pseudototalidade, mais alienante ainda que o egoísmo subjetivo inicial. O nome religioso desse ato de confiança é fé, mas a confiança que eleva a razão à busca do infinito transcende o sentido da mera adesão a um credo em particular e tem antes uma dimensão antropológica: tudo o que o ser humano fez de bom, fez movido pela fé e por meio da razão.
O espírito e a razão educam os sentimentos. Os sentimentos do homem amadurecido pelo espírito e pela razão são diferentes dos do homem imaturo, porque aquele ama o que deve amar e odeia o que deve odiar, enquanto o segundo ama ou odeia às tontas, segundo as inclinações arbitrárias da sua subjetividade moldada pelas pressões e atrativos do meio social.
Mas o que atrai a alma para a abertura ao espírito e à razão é a esperança, e o despertar da esperança é um mistério. Homens submetidos à mais dura opressão e aos mais tormentosos sofrimentos conservam sua esperança, enquanto outros a perdem à primeira frustração de um desejo tolo. A esperança não está sob o nosso controle. Seu advento depende do espírito mesmo, que sopra onde quer. Todos os enredos humanos, da vida e da ficção, giram em torno do mistério da esperança.
A esperança, a fé e a caridade educam os sentimentos para o amor ao que deve ser amado. O culto idolátrico dos sentimentos é um egocentrismo cognitivo, um complexo de Peter Pan que recusa a maturidade. Quanto mais o homem busca afirmar sua liberdade por meio da adesão cega a seus sentimentos e desejos, mais se torna escravo da tagarelice ambiente. O caminho da liberdade é para cima, não para baixo. Libertar-se não é afirmar-se: é transcender-se.
Das várias formas de escravidão a que o homem se sujeita pelo culto dos sentimentos, a pior é a escravidão às palavras. Por meio do falatório em torno o homem pode ser adestrado para ter certos sentimentos e emoções à simples audição de determinadas palavras, independentemente dos fatos e do contexto. Paz e guerra, por exemplo, suscitam reações automáticas. Por isso as massas imaturas aceitam com a maior credulidade os novos regimes de governo que prometem acabar com as guerras e instaurar a paz. Mas é só nominalmente que guerra significa morticínio e paz significa tranqüilidade e segurança. As guerras, no século XX, mataram 70 milhões de pessoas. É muita gente. Mas 180 milhões, mais que o dobro disso, foram mortos por seus próprios governos, em tempo de paz e em nome da paz. O homem maduro sabe que as relações entre guerra e paz são ambíguas, que só um exame criterioso da situação concreta permite discernir a dosagem do bem e do mal misturados em cada uma delas a cada momento. Ele sabe que a Pomba da Paz, oferecida à adoração infantil nas escolas, foi um desenho encomendado a Pablo Picasso por Josef Stalin com o intuito de fazer com que o símbolo da Pax soviética -- a ordem social totalitária construída sobre trabalho escravo, prisões em massa e genocídio -- se sobrepusesse, na imaginação dos povos, ao símbolo cristão do Espírito Santo. O homem maduro sabe que, tanto quanto a Pomba da Paz, também manifestos pela paz, discursos pela paz e até missas pela paz são, muitas vezes, blasfêmias e armas de guerra. No dicionário, os sentidos da guerra e da paz estão nitidamente distintos, mas o homem maduro não se refugia da complexidade das coisas no apelo pueril a absolutos verbais.
Igualdade, liberdade, direito, ordem, segurança e milhares de outras palavras foram também incutidas na mente das massas como programas de computador para acionar nelas automaticamente as emoções desejadas pelo programador, fazendo com que amem o que deveriam odiar e odeiem o que deveriam amar. Até a esperança, chave da fé e da caridade, se torna aí uma arma contra o espírito, quando se coisifica na expectativa de um mundo melhor, de uma sociedade mais justa ou, no fim das contas, de ganhar mais dinheiro. Jesus deixou claro que não era nenhuma dessas esperanças a que Ele trazia. Era a esperança de fazer de cada um de nós um novo Cristo, encarnação e testemunha do espírito. Quem aceitar menos que isso só ganhará, em vez da paz de Cristo, uma bandeirinha da ONU com a pomba de Stalin.
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
PASSAGEM PELA POLÍTICA
"Eu visitava os eleitores, de casa em casa, batendo em
algumas ruas a todas as portas ... Doía ver o quanto custava a essa gente
crédula a sua devoção política. Uma vez ... entrei na casa de um operário,
empregado em um dos arsenais, para pedir-lhe o voto. Chamava-se Jararaca, mas
só tinha de terrível o nome. Estava pronto a votar por mim, tinha simpatia pela
causa, disse-me ele; mas votando, era demitido, perdia o pão da família; tinha
recebido a chapa de caixão ( uma cédula marcada com um segundo nome, que servia
de sinal), e se ela não aparecesse na urna, sua sorte estava liquidada no mesmo
instante.
... Estou pronto a
votar pelo senhor...
'....Não, não é preciso', respondi-lhe, 'vote como o governo,
não deixe de levar a sua chapa de caixão, não arrisque à fome toda essa
gentinha que está me olhando' (quatro crianças pequenas)... 'Há de vir tempo em que o senhor poderá votar em mim
livremente, até lá, é como se tivesse feito'.. E saí com medo que ele se
arrependesse e fosse votar em mim."
Fonte: Joaquim Nabuco. Minha formação. Topbooks, p 187.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
DAVE BRUBECK E A ORAÇÃO DO SENHOR: O PAI-NOSSO
O seu primeiro contacto com a missa foi a obra “To
Hope! A Celebration”, encomendada por Ed Murray, diretor do “Our Sunday
Visitor”, quando Brubeck não tinha aderido a qualquer confissão religiosa.
O sacerdote «estava muito desapontado», recordou
Dave. «Ele disse: “Gostei muito da missa mas deixou de fora o Pai-nosso”. Eu
perguntei-lhe: “O que é o Pai-nosso?”, porque não significa nada para mim. Não
sou católico. E ele respondeu, “Pai-nosso, que estais nos céus”. Eu retorqui “é
a Oração do Senhor”. O padre disse, “bem, no catolicismo chamamos-lhe
Pai-nosso”. Então eu respondi, “ninguém me disse para o escrever, por isso não
escrevi. Para mim a missa está terminada; vou de férias para as Bahamas com a minha
família porque trabalhei duramente”. Quando lá cheguei, o que é que sucedeu?
Sonhei o Pai-nosso porque um padre me disse que o tinha deixado de fora. Saltei
da cama a meio da noite e compu-lo todo. E agora está na missa».
O episódio mudou não só a obra como a vida de
Brubeck: «Juntei-me à Igreja Católica porque senti que alguém me estava a
tentar dizer alguma coisa».
Fonte: http://www.ocampones.com/
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
UM DICA SIMPLES DO MESTRE CHESTERTON
"Um garoto não conseguirá perceber a importância do latim simplesmente estudando latim. Porém, poderia descobri-la estudando a história dos latinos. Ninguém encontrará sentido algum em estudar geografia ou aritmética; ambos são ramos do conhecimento claramente sem importância. Porém, na ansiosa véspera da Batalha de Austerlitz, onde Napoleão enfrentaria uma força superior em um país estrangeiro, qualquer um poderia ver a necessidade que a tropa soubesse um pouco de geografia e um pouco de aritmética. Tenho a impressão de que se nós estudássemos apenas História, aprenderíamos todas as outras coisas… A História é simplesmente a humanidade. E a História humanizará todos os outros estudos".
- G. K. Chesterton in Lunacy and Letters
FONTE: https://www.facebook.com/chestertonnobrasil?fref=ts
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