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quarta-feira, 9 de julho de 2014

MUITO ALÉM DAS COPAS

Crônica de Carlos Drummond de Andrade publicada em 7 de julho de 1982, no Jornal do Brasil após a triste derrota do Brasil na Copa de 1982.

PERDER, GANHAR, VIVER

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?

quinta-feira, 20 de março de 2014

MOTIVAÇÃO PRIMITIVA

 

Existe hoje um costume que é difícil não perceber e achar no mínimo estranho. Trata-se da quantidade de empregados que colocam seus antigos patrões na justiça. Pelo número de historinha que já escutei por aí, e vendo algumas entrevistas televisivas de advogados trabalhistas, que por sinal é a especialidade mais numerosa, parece que essa prática de processar o empregador virou algo corriqueiro.
Tirando os casos de verdadeiras injustiças, os demais parecem envolver pessoas que vivem dessas situações especulatórias,fomentando as indústrias dos processos. Mas não desejo me envolver diretamente nesse assunto que além de ser detestável eu não tenho domínio. Sobre leis trabalhistas, justiça do trabalho ou qualquer matéria relacionada ao direito não conheço nada.
No entanto, sempre que escuto historinhas de processo trabalhista, lembro-me de outra história que é totalmente contrastante com essas encrencas que observamos por aí. Diz respeito a uns três parágrafos de um livro que apenas folheei, e desde então, esse pequeno trecho não esqueci. A história é a seguinte:
Na Idade Média viveu um jovem conhecido como Carlos, o Temerário(arrojado) e que também ostentava o título de conde de Charlois. Um belo dia chegava de uma viagem e ficou sabendo que seu pai, que era duque, retirou-lhe todos os benefícios. Então, Carlos percebendo seu estado de penúria mandou chamar todos os seus empregados, inclusive os ajudantes de cozinha. 
Na reunião convocada com urgência, Carlos informou a situação de falência e manifestou o respeito pelo pai equivocado. Preocupado, ele pediu aos empregados que possuíam uma condição melhor, para que ainda esperassem por uma possível melhora da situação; aos mais pobres, disse que estavam livres para partir em busca do sustento. Avisou que se algum empregado escutasse que sua sorte mudou poderia voltar e seria recebido de braços abertos.
Neste anúncio só se ouvia o som do choro dos empregados, e junto com o choro veio o brado de que ficariam e sofreriam junto com o conde. Carlos, surpreso com a adesão até dos mais pobres, ficou visivelmente emocionado e encerrou a reunião com a seguinte frase:
“Assim sendo, que vivam e sofram; e eu sofrerei por todos, antes que sintam falta de algo”.
Foi comovente para todos ali presente, e depois deste episódio, dizem que apesar de toda dificuldade não faltou um frango sequer na mesa.
O intrigante acontecimento é descrito por Johan Huizinga, no livro O outono da Idade Média, e o historiador relata que este episódio medieval é integralmente dominado por uma motivação muito primitiva, a da fidelidade mútua.
Voltando aos dias de hoje, cinco séculos se passaram e da pra imaginar o que teria acontecido com o conde. Carlos, o Temerário provavelmente receberia uma dúzia de processos na justiça do trabalho, arrancariam as suas armaduras e transformariam sua vida numa dor de cabeça burocrática sem tamanho. 
Essa coisa que chamam de lealdade está tão fora de moda que histórias como esta provocam apenas descrença e risos. Escutaríamos por aí:
_ Esse cara não é arrojado, é burro!
_ Ah, mas isso era lá na Idade Média, queria ver esse Carlos hoje!

terça-feira, 11 de março de 2014

O PROFESSOR ARMSTRONG

Aos 18 anos, o sociólogo Gilberto Freyre foi estudar nos Estados Unidos, isto foi no ano de 1918. Lá chegou com status de menino prodígio, o que se confirmou logo após passar por uma bateria de testes de QI, o resultado foi bem claro, ele foi considerado superdotado mesmo.
Em determinado momento, durantes os estudos formais do curso, esbarrou no que para ele (Freyre) era um fardo, a matemática.
Neste quesito a Universidade de Baylor, optou por dispensá-lo de um exame de física, o próprio Gilberto Freyre jurava que fracassaria caso fizesse tal exame.
O detalhe surpreendente foi todo o processo realizado para dispensá-lo do exame.
Com a palavra o professor Armstrong:
_ Trata-se de um gênio! Ponto final.
 Certamente se essa estória tivesse ocorrido em uma universidade brasileira, com o aval e supervisão do Ministério da Educação, o final teria sido um pouquinho diferente...



P.S: Quinze anos depois, Gilberto Freyre escreveu a história da sociedade patriarcal brasileira, em Casa-Grande & Senzala, sua grande obra, o livro foi aclamado no mundo e também no Brasil.

sexta-feira, 7 de março de 2014

O HOMEM QUE DIZIA A VERDADE


Uma das vaidades do Rei Dionísio era se considerar poeta. Não perdia uma oportunidade de fazer versos. Tinha uma infinidade de bajuladores que aplaudiam todos os seus versos.
Já um tanto cansado desses aplausos garantidos o Rei decidiu chamar um filósofo chamado Filoxeno para assistir suas apresentações.
Filoxeno foi ao palácio, assistiu toda apresentação, e Dionísio esperando todos os elogios que achava justo. Mas para surpresa geral o filósofo afirmou que os versos eram horríveis e não mereciam ser chamados de poesia, e muito menos o autor ser chamado de poeta. O Rei ficou fora de si diante de tamanha sinceridade. E transtornado chamou os guardas e ordenou a prisão do filósofo.
Foi uma comoção geral na cidade, os amigos de Filoxeno ficaram indignados com o ocorrido e enviaram uma carta solicitando a liberdade de filósofo.
Preocupado com a ira dos súditos ou talvez com alguma outra intenção o fato é que o Rei concordou libertar o filosofo e convocou um novo jantar.
Filoxeno foi. Ao fim do grande banquete, na presença de todos os cortesãos, o rei se levantou e declamou novos versos que tinha composto nos últimos tempos. Queria que o filósofo que só dizia a verdade ouvisse pois achava os extremamente bons. Toda corte teceu muitos elogios. Apenas Filoxeno permanecia em silêncio, sem dizer uma só palavra, sem nenhuma expressão facial.
Isto não era exatamente o que Dionísio esperava. Controlou a impaciência o quanto pode. Vendo que Filoxeno não se manifestava, o tirano dirigiu-se a ele com pretensa calma e, achando que ele não ousaria provocar novamente sua ira, perguntou:
_Diga-me, Filoxeno, sua opinião sobre este meu novo poema.
De fato, ninguém esperava a resposta que ele deu. Pois, dando as costas aos participantes do banquete, Filoxeno dirigiu-se aos guardas e disse, em tom de repugnância:
_ Levem-me de volta ao calabouço!
Todos ficaram horrorizados com a declaração. Apavorados aguardaram a decisão de Dionísio. Mas embora vaidoso o tirano respeitou pela coragem moral e deixando os cortesãos trêmulos de medo, voltou-se com um sorriso para o imperturbável Filoxeno e deu-lhe permissão para ir em paz.


Trecho adaptado do conto: O homem que dizia a verdade O livro das virtudes II O compasso moral