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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

OS SENTIMENTOS E A CONDUTA HUMANA

Jesus e a pomba de Stalin
Olavo de CarvalhoO Globo, 20 de outubro de 2001

Quando Cristo disse: “Na verdade amais o que deveríeis odiar, e odiais o que deveríeis amar”, Ele ensinou da maneira mais explícita que os sentimentos não são guias confiáveis da conduta humana: antes de podermos usá-los como indicadores do certo e do errado, temos de lhes ensinar o que é certo e errado. Os sentimentos só valem quando subordinados à razão e ao espírito.
Razão não é só pensamento lógico: reduzi-la a isso é uma idolatria dos meios acima dos fins, que termina num fetichismo macabro. Razão é o senso da unidade do real, que se traduz na busca da coesão entre experiência e memória, percepções e pensamentos, atos e palavras etc. A capacidade lógica é uma expressão parcial e limitada desse senso. Também são expressões dele o senso estético e o senso ético: o primeiro anseia pela unidade das formas sensíveis, o segundo pela unidade entre saber e agir. Tudo isso é razão.
Espírito é aquilo que inspira a razão a buscar a chave da unidade da visão do mundo no supremo Bem de todas as coisas e não num detalhe acidental qualquer, tomado arbitrariamente como princípio de explicação universal, como algumas escolas filosóficas fazem com a linguagem, outras com a História, outras com o inconsciente etc. O espírito é o topo do edifício da razão, que por ele se abre para o sentido do Bem infinito, libertando-se da tentação de enrijecer-se num fetichismo trágico ou utópico.
Nem a razão nem o espírito se impõem. Só nos abrimos a eles por livre vontade. A abertura para a razão vem essencialmente da caridade, do amor ao próximo, pelo qual o homem renuncia a impor seu desejo e aceita submeter-se ao diálogo, à prova, ao senso das proporções e, em suma, ao primado da realidade. A abertura para a razão é educação. Educação vem de ex ducere, que significa levar para fora. Pela educação a alma se liberta da prisão subjetiva, do egocentrismo cognitivo próprio da infância, e se abre para a grandeza e a complexidade do real. A meta da educação é a conquista da maturidade. O homem maduro -- o spoudaios de que fala Aristóteles -- é aquele que tornou sua alma dócil à razão, fazendo da aceitação da realidade o seu estado de ânimo habitual e capacitando-se, por esse meio, a orientar sua comunidade para o bem. Este ponto é crucial: ninguém pode guiar a comunidade no caminho do bem antes de tornar-se maduro no sentido de Aristóteles. Líderes revolucionários e intelectuais ativistas são apenas homens imaturos que projetam sobre a comunidade seus desejos subjetivos, seus temores e suas ilusões pueris, produzindo o mal com o nome de bem.
A abertura ao espírito é um ato de confiança prévia no bem supremo da existência, ato sem o qual a razão perde o impulso ascendente que a anima e, fugindo do infinito, se aprisiona em alguma pseudototalidade, mais alienante ainda que o egoísmo subjetivo inicial. O nome religioso desse ato de confiança é fé, mas a confiança que eleva a razão à busca do infinito transcende o sentido da mera adesão a um credo em particular e tem antes uma dimensão antropológica: tudo o que o ser humano fez de bom, fez movido pela fé e por meio da razão.
O espírito e a razão educam os sentimentos. Os sentimentos do homem amadurecido pelo espírito e pela razão são diferentes dos do homem imaturo, porque aquele ama o que deve amar e odeia o que deve odiar, enquanto o segundo ama ou odeia às tontas, segundo as inclinações arbitrárias da sua subjetividade moldada pelas pressões e atrativos do meio social.
Mas o que atrai a alma para a abertura ao espírito e à razão é a esperança, e o despertar da esperança é um mistério. Homens submetidos à mais dura opressão e aos mais tormentosos sofrimentos conservam sua esperança, enquanto outros a perdem à primeira frustração de um desejo tolo. A esperança não está sob o nosso controle. Seu advento depende do espírito mesmo, que sopra onde quer. Todos os enredos humanos, da vida e da ficção, giram em torno do mistério da esperança.
A esperança, a fé e a caridade educam os sentimentos para o amor ao que deve ser amado. O culto idolátrico dos sentimentos é um egocentrismo cognitivo, um complexo de Peter Pan que recusa a maturidade. Quanto mais o homem busca afirmar sua liberdade por meio da adesão cega a seus sentimentos e desejos, mais se torna escravo da tagarelice ambiente. O caminho da liberdade é para cima, não para baixo. Libertar-se não é afirmar-se: é transcender-se.
Das várias formas de escravidão a que o homem se sujeita pelo culto dos sentimentos, a pior é a escravidão às palavras. Por meio do falatório em torno o homem pode ser adestrado para ter certos sentimentos e emoções à simples audição de determinadas palavras, independentemente dos fatos e do contexto. Paz e guerra, por exemplo, suscitam reações automáticas. Por isso as massas imaturas aceitam com a maior credulidade os novos regimes de governo que prometem acabar com as guerras e instaurar a paz. Mas é só nominalmente que guerra significa morticínio e paz significa tranqüilidade e segurança. As guerras, no século XX, mataram 70 milhões de pessoas. É muita gente. Mas 180 milhões, mais que o dobro disso, foram mortos por seus próprios governos, em tempo de paz e em nome da paz. O homem maduro sabe que as relações entre guerra e paz são ambíguas, que só um exame criterioso da situação concreta permite discernir a dosagem do bem e do mal misturados em cada uma delas a cada momento. Ele sabe que a Pomba da Paz, oferecida à adoração infantil nas escolas, foi um desenho encomendado a Pablo Picasso por Josef Stalin com o intuito de fazer com que o símbolo da Pax soviética -- a ordem social totalitária construída sobre trabalho escravo, prisões em massa e genocídio -- se sobrepusesse, na imaginação dos povos, ao símbolo cristão do Espírito Santo. O homem maduro sabe que, tanto quanto a Pomba da Paz, também manifestos pela paz, discursos pela paz e até missas pela paz são, muitas vezes, blasfêmias e armas de guerra. No dicionário, os sentidos da guerra e da paz estão nitidamente distintos, mas o homem maduro não se refugia da complexidade das coisas no apelo pueril a absolutos verbais.
Igualdade, liberdade, direito, ordem, segurança e milhares de outras palavras foram também incutidas na mente das massas como programas de computador para acionar nelas automaticamente as emoções desejadas pelo programador, fazendo com que amem o que deveriam odiar e odeiem o que deveriam amar. Até a esperança, chave da fé e da caridade, se torna aí uma arma contra o espírito, quando se coisifica na expectativa de um mundo melhor, de uma sociedade mais justa ou, no fim das contas, de ganhar mais dinheiro. Jesus deixou claro que não era nenhuma dessas esperanças a que Ele trazia. Era a esperança de fazer de cada um de nós um novo Cristo, encarnação e testemunha do espírito. Quem aceitar menos que isso só ganhará, em vez da paz de Cristo, uma bandeirinha da ONU com a pomba de Stalin.

sábado, 9 de agosto de 2014

TER OPINIÃO PARTE III: DE ONDE VÊM SEUS PENSAMENTOS?




"O que observamos sobre toda a cultura atual do jornalismo e das discussões gerais é que as pessoas não sabem como começar a pensar. Não somente que seu pensamento é de terceira ou quarta mão, mas que começa já na terça parte do processo. Os homens não sabem de onde vêm seus pensamentos. Eles não sabem quais as consequências de suas palavras. Eles chegam ao final de toda controvérsia e não sabem de onde ela começou ou de que se trata. Supõem certos absurdos que corretamente definidos chocariam até eles próprios."

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

TER OPINIÃO PARTE II: OPINIÃO É CONHECIMENTO ?




A OPINIÃO  X  O CONHECIMENTO

"Dizemos que matérias de opinião estão sujeitas a conflitos, que estamos familiarizados com os conflitos de opinião, com a diversidade de opinião sobre os mais diferentes assuntos. Mas quando lidamos com qualquer assunto sobre o qual haja conhecimento, não falamos em conflito. Não dizemos que conhecimentos são conflitantes como falamos que opiniões o são. Porque é da natureza mesma daquilo de que podemos ter opinião que esteja sujeito a conflitos, ao contrário daquilo de que sabemos. "

quarta-feira, 30 de julho de 2014

TER OPINIÃO



“ O idiota presunçoso, isto é, o tipo mais representativo de qualquer profissão hoje em dia, incluindo as letras, o ensino e o jornalismo, forma opinião de maneira imediata e espontânea, com base numa quantidade ínfima ou nula de conhecimentos, e se apega a seu julgamento com a tenacidade de quem defende um tesouro maior que a vida. A rigor, não tem propriamente opiniões. Tem apenas impressões difusas que não podendo, é claro, encontrar expressão adequada, se acomodam mecanicamente a qualquer fórmula de sentido análogo, colhida no ambiente, e então lhe parecem opiniões pessoais, como se a conquista de uma autêntica opinião pessoal prescindisse de esforço.”



Olavo de Carvalho, O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. p. 453

http://www.olavodecarvalho.org/semana/051024dc.htm

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O AMBIENTE DO ESTUDANTE


Ao ler sobre a influência da escola na vida do estudante, no livro "Como as pessoas aprendem", um dado no mínimo interessante, ressaltava que 14% do tempo de um jovem estudante é gasto na escola, o resto do tempo em casa e na sociedade (53%) e também dormindo, e tendo um bom descanso (33%).
Quanto aos 14% de tempo escolar, significa dizer que se a escola for uma porcaria, o mal pode não ser tão grande para o aluno, por outro lado, se a escola for boa significa pouco diante da gama de aprendizado necessários.
Justamente a parcela maior de tempo é no ambiente familiar, este pode ser determinante para o avanço intelectual, mas se o ambiente familiar ou social foi intelectualmente pobre, complica muito a vida do jovem estudante.
Mais uma vez me lembrei da estória da Senhora Carson que mesmo sendo analfabeta e pobre, “obrigava” os seus filhos a ler dois livros por semana e ao final da leitura, escrever sobre o que foi lido. Um exercício simples ao alcance de qualquer mortal, mas que sem dúvida exige uma disciplina e uma vontade grande para mudar o estado das coisas.
Fico imaginando quantos adolescentes mesmo achando um “saco” tal obrigação imposta pelos pais, não acharia também um belo desafio, ter os seus escritos lidos pelos mais velhos, além disso, poder comentar, discutir, observar se algo impactou, ou se teve algum sentido para a sua própria vida.
O que parece ser difícil é dar o pontapé inicial para o enriquecimento do ambiente familiar, criar a rotina. No início pode parecer tempo perdido, mas fico imaginando quem faz esse tipo de exercício ao longo de anos. 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

COMO OS JAPONESES EDUCAM AS SUAS ELITES


“Quando um país dá certo, diligentemente buscamos imitá-lo, como se isso fosse garantia de repetir o seu êxito. Muito louvável, desde que imitemos aquilo que realmente tem a ver com tal sucesso. Matar presidentes, mascar chicletes e discriminar minorias
étnicas certamente não nos levará à abundância americana. Comer de pauzinhos, cantar no karaokê e exercitar-se nas cerimônias do chá não nos trarão a prosperidade japonesa. Infelizmente, o que vale a pena imitar constitui-se em dieta árdua. A educação nos fornece um bom exemplo.
O London Times publicou os horários de uma escola para filhos de executivos japoneses morando na Europa. Trata-se da Gyosei International School, que começou a operar próximo a Londres, com trezentos alunos em regime de internato. A escola seguirá, à risca, o horário de sua matriz no Japão. Vale a pena reproduzi-lo integralmente:
6:00 - Levantar-se e arrumar o quarto
6:05 - Exercícios matinais e reuniões
6:30 - Café-da-manhã
6:50 - Preparação para as aulas
7:00 / 7:50 - Primeira aula
8:05 - Estudo individual ou prova
8:25/ 12:15 - Aulas

12:00 / 13:00 - Almoço
13:00 / 13:50 - Aulas
13:50 - Reunião ou estudo
14:30 / 16:30 - Aulas suplementares
(japonês, inglês, matemática etc.)

17:30 - Descanso, banho
18:00 - Jantar
18:30 / 20:30- Limpar o quarto, estudo individual e aulas
20:30 - Intervalo e lanche
21:00 / 22:30 - Estudo individual
22:30 - Preparar-se para dormir
23:30 - Apagam-se as luzes
Até os ingleses - em outros tempos arautos de um regime espartano em suas melhores escolas - assustaram-se com o rigor do regime. O Sindicato dos Professores ensaiou os seus protestos. Há excesso de pressão sobre os alunos, reclamam zangados. Como concessão, os professores locais contratados pela escola não têm que se levantar tão cedo.
Não parece absurdo supor que a disciplina japonesa e a indignação britânica sejam relevantes para explicar o êxito dos primeiros e a decadência econômica dos ingleses naqueles anos. Boa educação e bons hábitos de trabalho jamais foram cacoetes pitorescos e inúteis.”



Fonte: Castro, Claudio de Moura; Educação brasileira: consertos e remendos. Ed. Rocco, 2007. p. 293

sábado, 24 de maio de 2014

O MÉTODO DA SENHORA CARSON

O doutor Ben Carson entrou pra história da medicina em 1987 ao realizar a cirurgia que separou gêmeos siameses. A sua infância que foi muito difícil, entre brigas e dificuldades na escola, muda completamente quando um belo dia a sua mãe, que era analfabeta, resolve adotar uma regra doméstica simples e desafiadora: menos tv (só 2 programas por semana) e mais leitura ( 2 livros por semana).




sexta-feira, 25 de abril de 2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A RECLAMAÇÃO


Certa vez, um velho treinador irritado com o resultado do seu time, reuniu os seus jogadores e questionou:
“Pessoal como é que é?! O que tá acontecendo!?”
Ele estava à frente do time beisebol de uma escola americana (High School) por 30 anos.
Os últimos jogos foram péssimos. No time, uns prometeram perder alguns quilos, outros concordaram respeitar o horário de treino, todos prometeram mudar, mas passado um mês das promessas, além de nada ter modificado os resultados dos jogos continuavam negativos.
Desta vez, diante da advertência do técnico o grupo se esquivou, e o inesperado veio em seguida: uma enxurrada de reclamações dos pais destes alunos, seguida de uma forte pressão para que o diretor demitisse o treinador.
O curioso imbróglio ocorreu na mesma semana em que vitorioso treinador receberia uma homenagem dos ex-alunos, os veteranos construíram uma nova quadra esportiva, e esta receberia o seu nome. Uma homenagem dentre tantas que recebeu ao longo da carreira, durante trinta anos o treinador foi um símbolo de disciplina naquele colégio, mas nos últimos anos as coisas mudaram.
O episódio diz muita coisa, reflete em grande parte a transformação dos valores na sociedade, fenômeno observado nas últimas décadas (principalmente à partir da década de 1960). Mas este é só o início da história contada no livro, Treinador, do escritor Michael Lewis que também foi um dos ex-alunos do treinador.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O MÉTODO BELGA


 
Certa vez um conhecido me contou que quando estudava em um colégio de primeira linha da zona sul carioca, teve um professor de matemática que era um pouco diferente do habitual, de origem belga, era um conceituado engenheiro que estava no Brasil desenvolvendo algum projeto voltado para a construção civil.
Na sala de aula, o professor engenheiro, tinha o costume de, após explicar a matéria, lançar um problema matemático no quadro negro, e desafiar a todos. Não passava para outra questão até que aquela fosse devidamente resolvida. Solicitava aluno por aluno até encontrar alguém que pudesse responder corretamente, e isso poderia durar horas, até mais de uma aula se fosse necessário.
E para piora, o detalhe mais excêntrico é que este professor tinha o costume de não prostituir as palavra do dicionário, era do tipo de pessoa que não confundia “sim” com “não”. Algumas vezes chamava os alunos de ignorantes, quando estes respondiam alguma atrocidade referente a sua matéria. Falava então num sotaque caracteristicamente forte: “Os senhores são ignorrrântes!” O mestre, também tinha por costume, usar a expressão “senhores” no trato com os alunos.  
Um belo dia, eis que um dos líderes da classe, destes que fazem parte da “turma do fundão” (alunos que sentam nas últimas fileiras) resolveu reivindicar. O líder novato esgotado das humilhações lançadas pelo professor decidiu exigir mais respeito, e numa ação repentina, impensada, levantou da cadeira, estufou o peito, e exigiu atenção:
_ Prooo-feees-sor! Você não pode chamar a gente de ignorante!
A turma ficou surpreendida, todos se viraram para o novo líder, assustados, preocupados com a reivindicação.
O professor achou aquilo curiosíssimo, mas a sua fisionomia permaneceu inalterável, diante dessa interrupção abrupta esperou alguns segundos e perguntou com a voz mais calma do mundo:
_ Não posso?
E o líder novato, replicou firmemente:
_ Não!
O professor resolveu confirmar:
_ O senhor afirma que não posso lhe chamar de “ignorrânte”?!
_ Afirmo. Isto é um absurdo!
O professor com uma cara nunca vista antes, resolveu investigar os motivos não apresentados pelo aluno, pausadamente perguntou:
_ Mas por que o senhor diz que não posso lhe chamar de ignorrrânte?
_ Veja bem, professor nós somos do colégio tal - e bradou em alto em bom tom o nome do colégio – nós somos alunos da turma tal - e sublinhou que essa turma era destacada das outras, e que por isso exigia mais respeito no linguajar.
Diante dos argumentos, o professor ficou com aquele olhar fixo, distante.
_ O senhor está me dizendo que aqui é o melhor colégio?
_ Nosso colégio é o melhor da zona sul, professor!
_ E o senhor está me dizendo que essa é a melhor turma do melhor colégio da região?
_ Somos a melhor turma do colégio, melhores notas e fazemos parte da turma especial, esse linguajar é inapropriado.
Neste exato momento algo mudou, todos perceberam que a cara do professor não estava tão boa quanto antes. A ficha caiu, ele tinha concluído alguma coisa que não cheirava bem.
_ O senhor está me dizendo, e vejo que PARECE ACREDITAR VERDADEIRAMENTE no que diz. Mas o melhor COLÉGIO com a melhor TURMA é incapaz de resolver este probleminha que se encontra no quadro?

_ É professor mas...

O professor já tinha calculado tudo e encerrou, com aquela voz em tom de falsete, meio desafinada, que sai fina e termina grave:
_ MAS SENHOR IGNORRAA! PORTANTO O SENHÔÔR É UM IGGNORRRÂnteee

O sotaque do professor ficava mais engraçado quando aparentava estar indignado.A turma veio abaixo,muitas gargalhadas e aula terminou ali! 
Passado esse episódio, constatou-se que entre mortos e feridos, ninguém saiu traumatizado. O aluno protagonista ficou mais cuidadoso com as ideias e fatos que às vezes se misturavam estranhamente na sua cabeça.
Meses mais tarde, o professor disse para um aluno que havia resolvido no quadro um dos seus problemas, este em especial bem caprichado na dificuldade.
_É a primeira vez que vejo alguém resolver esse problema desta forma, mas a resposta está absolutamente certa. Na minha disciplina o senhor pode se considerar APROVADO!

segunda-feira, 17 de março de 2014

A COGNIÇÃO E O PROTAGONISMO DO CELULAR

O hábito de dividir a atenção entre mil e uma tarefas simultaneamente pode diminuir a capacidade de percepção das coisas. É possível hoje sair na rua e observar que as pessoas estão constantemente conferindo algo na tela do celular.  Na rua, no restaurante, no transito, na sala de aula, sempre tem alguém de olho em alguma coisa no aparelho celular com um aparente desprezo para a circunstância ao redor.
No exemplo da sala de aula já ouvi ideias pró e contra o uso do aparelho celular. Já escutei de alguns professores que o celular ajuda na busca de informações adicionais, e isto até pode ser um elemento importante desde que a disciplina do aluno permita tratar o celular como algo realmente adicional, e não concorrente ou principal.
Se o aluno priorizar o celular, parece bastante óbvio o resultado. O professor vai ficar ali igualzinho uma televisão sem som, e o aluno mergulhado no Google, Facebook, Whatsapps dentre outros. É possível também que a aula do professor seja tão ruim que o aluno obrigado a estar ali presencialmente, opte conscientemente por desviar a atenção, mas isto é outro assunto.
Na circunstancia ideal, o aluno interessando no assunto explicado por um bom professor, tornaria o celular um aparelho esquecido durante aqueles preciosos minutos de explicação.
Supondo que estamos longe do ideal, e se imaginarmos que o aluno divide a sua atenção durante a aula, ele vai esbarrar no problema que já foi explicado por alguns psicólogos cognitivos.
No livro Controle cerebral e emocional, Narciso Irala explica que a função emissora e receptora não pode ser justaposta, ou seja, ou o sujeito é emissor ou receptor durante o momento de aprendizagem. Para exemplificar, emissão seria quando o aluno digita no celular, e recepção seria quando escuta o professor ou quando lê as mensagens do celular.
Além disso, o ato cognitivo requer uma atenção ideal que passa por padrões neuromusculares, ou seja, o sujeito precisa estar atento e relaxado ao mesmo tempo, e isto envolve a concentração visual, auditiva, e sinestésica voltadas para o objeto.
Dar atenção a alguma coisa significa recusar todas as outras que estão ao redor naquele momento. Veja esse exemplo de exercício proposto no livro: “para reeducar-se procure aplicar a vista, por uns dez ou vinte segundos, a uma paisagem, a um objeto, a um pormenor, com atenção tranquila e quase passiva, sem pressa, sem fixar o pensamento em outra coisa.”
Vinte segundos, olhando uma “paisagem”! Muitos não aguentariam sequer um segundo e meio parados. Mas com um pouquinho de boa vontade não é tão impossível assim.
Fica bem claro que concentração não é algo que achamos ali na esquina. E não é possível imaginar alguém querendo aprender realmente alguma coisa, desdenhando tanto desse elemento fundamental para o ato cognitivo. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

O HOMEM QUE DIZIA A VERDADE


Uma das vaidades do Rei Dionísio era se considerar poeta. Não perdia uma oportunidade de fazer versos. Tinha uma infinidade de bajuladores que aplaudiam todos os seus versos.
Já um tanto cansado desses aplausos garantidos o Rei decidiu chamar um filósofo chamado Filoxeno para assistir suas apresentações.
Filoxeno foi ao palácio, assistiu toda apresentação, e Dionísio esperando todos os elogios que achava justo. Mas para surpresa geral o filósofo afirmou que os versos eram horríveis e não mereciam ser chamados de poesia, e muito menos o autor ser chamado de poeta. O Rei ficou fora de si diante de tamanha sinceridade. E transtornado chamou os guardas e ordenou a prisão do filósofo.
Foi uma comoção geral na cidade, os amigos de Filoxeno ficaram indignados com o ocorrido e enviaram uma carta solicitando a liberdade de filósofo.
Preocupado com a ira dos súditos ou talvez com alguma outra intenção o fato é que o Rei concordou libertar o filosofo e convocou um novo jantar.
Filoxeno foi. Ao fim do grande banquete, na presença de todos os cortesãos, o rei se levantou e declamou novos versos que tinha composto nos últimos tempos. Queria que o filósofo que só dizia a verdade ouvisse pois achava os extremamente bons. Toda corte teceu muitos elogios. Apenas Filoxeno permanecia em silêncio, sem dizer uma só palavra, sem nenhuma expressão facial.
Isto não era exatamente o que Dionísio esperava. Controlou a impaciência o quanto pode. Vendo que Filoxeno não se manifestava, o tirano dirigiu-se a ele com pretensa calma e, achando que ele não ousaria provocar novamente sua ira, perguntou:
_Diga-me, Filoxeno, sua opinião sobre este meu novo poema.
De fato, ninguém esperava a resposta que ele deu. Pois, dando as costas aos participantes do banquete, Filoxeno dirigiu-se aos guardas e disse, em tom de repugnância:
_ Levem-me de volta ao calabouço!
Todos ficaram horrorizados com a declaração. Apavorados aguardaram a decisão de Dionísio. Mas embora vaidoso o tirano respeitou pela coragem moral e deixando os cortesãos trêmulos de medo, voltou-se com um sorriso para o imperturbável Filoxeno e deu-lhe permissão para ir em paz.


Trecho adaptado do conto: O homem que dizia a verdade O livro das virtudes II O compasso moral